Conteúdos
Segundo a American Academy of Sleep Medicine, o sono é um dos pilares fundamentais da saúde, ao lado da alimentação equilibrada e da prática regular de atividade física1,2.
O conceito mais apresentado no mundo científico sobre o sono de qualidade é a autossatisfação do indivíduo com todos os aspectos da experiência de dormir3. Ou seja, um sono de qualidade é aquele que acontece de forma contínua, profunda e restauradora, permitindo que o corpo e a mente passem pelos processos necessários para a recuperação, equilíbrio e renovação4.
Existe uma diferença importante entre quantidade e qualidade do sono. Enquanto a quantidade está relacionada ao tempo total dormido, a qualidade envolve fatores como facilidade para adormecer, poucas interrupções ao longo da noite, sensação de descanso ao acordar e manutenção de um ciclo de sono adequado. Um sono reparador é aquele que realmente promove recuperação física, disposição e sensação de energia ao longo do dia1,5.
Durante o sono, o corpo realiza funções essenciais para a saúde. É nesse período que ocorrem processos relacionados à recuperação muscular, regulação hormonal, fortalecimento do sistema imunológico, consolidação da memória e equilíbrio emocional6,7.
Por isso, dormir bem influencia diretamente a capacidade de concentração, produtividade, aprendizado, humor e de lidar com o estresse. Quando o sono é insuficiente ou de baixa qualidade, é comum perceber mais cansaço, irritabilidade, dificuldade de foco e menor sensação de bem-estar8,10.
Falar sobre sono também é falar sobre autocuidado. Em uma rotina marcada por excesso de estímulos, demandas constantes e dificuldade de desacelerar, criar hábitos que favoreçam um descanso de qualidade é uma forma importante de promover equilíbrio e qualidade de vida. Dormir bem é parte fundamental da recuperação do corpo, da saúde mental e do bem-estar como um todo.
Embora muitas vezes seja associado apenas ao descanso, o sono é um processo biológico ativo e altamente organizado.
Enquanto dormimos, o organismo realiza uma série de funções essenciais para manter o equilíbrio físico, mental e metabólico. O cérebro continua trabalhando intensamente durante a noite, coordenando mecanismos importantes para recuperação do corpo, processamento emocional, aprendizado e regulação hormonal8,11.
É durante o sono que o cérebro organiza informações adquiridas ao longo do dia, fortalece conexões relacionadas ao aprendizado e contribui para o processamento emocional12,13. Além disso, hormônios importantes para funções como apetite, estresse e crescimento sofrem influência direta da qualidade e da duração do sono14.
O sono acontece em ciclos compostos por diferentes fases, que se repetem ao longo da noite. Cada uma delas exerce funções específicas para o corpo e para o cérebro. De acordo com a ciência, o sono é dividido em dois tipos: sono não REM (“Rapid Eye Movement”) e sono REM15. Confira a seguir:
1. sono leve
É a fase inicial e engloba os dois primeiros momentos do sono não REM, chamados de N1 e N2. É responsável pela transição entre a vigília e o descanso. Nesse momento, o corpo começa a desacelerar: frequência cardíaca, respiração e atividade cerebral diminuem gradualmente. Apesar de ser um estágio mais superficial, ele é importante para preparar o organismo para as fases mais profundas do sono16.
2. sono profundo
Chamado de N3, é considerado uma das etapas mais restauradoras e ainda faz parte do sono não REM. O sono profundo está relacionado à recuperação física, reparo muscular, fortalecimento do sistema imunológico e liberação de hormônios importantes para manutenção do organismo. É uma fase importante para sensação de descanso e recuperação da energia ao longo do dia16,17.
3. sono REM
O sono REM é marcado por intensa atividade cerebral e maior ocorrência de sonhos. Essa fase está presente em, aproximadamente, 20% do sono e participa especialmente dos processos de consolidação da memória, aprendizado, processamento emocional e equilíbrio cognitivo. Alterações importantes no sono REM podem impactar humor, foco e desempenho mental16.
Ao longo da noite, o organismo alterna entre essas fases em ciclos que duram, em média, 90 minutos16. A boa qualidade do sono depende justamente da capacidade de percorrer esses ciclos de forma adequada e relativamente contínua.
É importante comentar que não existe uma quantidade de horas exata e ideal para todas as pessoas, uma vez que a necessidade de sono pode variar conforme a idade, rotina, nível de atividade física, condições de saúde e características individuais.
Para os adultos saudáveis, as sociedades médicas recomendam ao menos sete horas de sono por noite para manutenção da saúde geral1. Para as crianças, a recomendação varia de acordo com a faixa etária, conforme a tabela a seguir18,19.

Dormir bem influencia praticamente todas as dimensões da saúde física e mental. A qualidade do sono está diretamente relacionada à disposição, funcionamento cognitivo, equilíbrio emocional, imunidade e saúde metabólica2.
Uma das consequências mais perceptíveis de um boa noite de sono é a sensação de energia e recuperação física ao longo do dia. Durante o sono, especialmente nas fases mais profundas, o organismo realiza processos importantes de reparo celular, recuperação muscular e restauração fisiológica. Quando o sono é insuficiente ou fragmentado, é comum perceber mais fadiga, sonolência diurna e sensação de esgotamento físico e mental1,2.
O cérebro permanece altamente ativo durante o sono. Enquanto dormimos, ocorrem processos relacionados à consolidação da memória, organização das informações adquiridas ao longo do dia, aprendizado e restauração cognitiva. Dormir bem favorece concentração, atenção, raciocínio e tomada de decisões1,20.
O sono também exerce papel fundamental na saúde emocional. Durante o descanso noturno, o cérebro participa do processamento emocional e da regulação das respostas ao estresse. Dormir adequadamente está associado a maior estabilidade emocional, melhor manejo da ansiedade cotidiana e maior sensação de bem-estar13.
O sono é um período importante para regulação do sistema imunológico e manutenção do equilíbrio metabólico. Durante a noite, o organismo ativa mecanismos relacionados à defesa imunológica, produção de mediadores inflamatórios e recuperação fisiológica. Dormir bem está associado a melhor resposta imunológica e maior capacidade do organismo de lidar com infecções e processos inflamatórios8.
Dormir mal nem sempre está relacionado a um único fator. Muitas vezes, hábitos cotidianos, rotina acelerada e estímulos excessivos ao longo do dia podem dificultar o relaxamento do corpo e da mente, impactando a qualidade do descanso. Identificar esses fatores é um passo importante para construir uma rotina de sono mais equilibrada e restauradora.
Fique atento aos principais fatores que podem prejudicar o sono21:
- estresse, ansiedade e mente acelerada;
- excesso de telas e exposição à luz azul;
- cafeína, álcool e alimentação perto da hora de dormir;
- horários irregulares e rotina desorganizada;
- ambiente inadequado para dormir.
Segundo recomendações atuais, pequenas mudanças nos hábitos e no ambiente já podem contribuir significativamente para melhora da qualidade do sono e do bem-estar geral1.
A privação de sono vai muito além da sensação de cansaço. Os estudos mostram que dormir menos do que o necessário pode impactar negativamente diferentes sistemas do organismo, aumentando riscos físicos, metabólicos, cognitivos e emocionais22.
Segundo a American Academy of Sleep Medicine, dormir regularmente menos de sete horas por noite está associado a importantes prejuízos à saúde e à qualidade de vida1.
A privação de sono está associada a maior irritabilidade, pior manejo do estresse, alterações de humor, dificuldade de concentração e aumento de sintomas ansiosos e depressivos22.
A redução das horas de sono pode comprometer funções como foco, raciocínio, velocidade de processamento e tomada de decisão. Revisões recentes demonstram que a privação de sono afeta especialmente memória operacional, vigilância e desempenho executivo, prejudicando atividades acadêmicas, profissionais e tarefas do cotidiano22,23.
A privação de sono altera hormônios relacionados à fome e saciedade, favorece maior consumo alimentar e aumenta o risco de ganho de peso, obesidade e diabetes tipo 2 ao longo do tempo. Além disso, a privação crônica de sono está associada a maior inflamação sistêmica e alterações metabólicas importantes22.
Dormir menos do que o recomendado pode contribuir para a elevação da pressão arterial, disfunção endotelial, inflamação vascular e maior risco de hipertensão, doença coronariana e acidente vascular cerebral22.
A privação de sono pode comprometer a respostas imunológicas, favorecer inflamação crônica e aumentar a suscetibilidade a doenças infecciosas22.
Dormir melhor não depende apenas de “tentar dormir mais cedo”. A qualidade do sono é influenciada por hábitos construídos ao longo do dia e, principalmente, pela forma como o corpo e a mente se preparam para o descanso. Pequenas mudanças consistentes na rotina já podem favorecer um sono mais profundo, contínuo e reparador. Veja a seguir hábitos que podem te ajudar a dormir melhor21:
1. criar uma rotina noturna
Dormir e acordar em horários semelhantes ajuda a regular o relógio biológico e favorece a organização natural do ciclo sono-vigília. Ter uma rotina previsível antes de dormir também sinaliza ao organismo que é hora de desacelerar.
2. promover uma desaceleração gradual do corpo e da mente
Atividades relaxantes no período da noite podem ajudar o cérebro a entrar progressivamente em estado de relaxamento.
3. ter atenção à alimentação e ao consumo de estimulantes
Cafeína, energéticos e grandes volumes de álcool próximos ao horário de dormir podem prejudicar a profundidade e continuidade do sono. Refeições muito pesadas à noite também podem causar desconforto e dificultar o descanso.
4. valorizar a exposição à luz natural pela manhã
A exposição à luz solar nas primeiras horas do dia ajuda a regular o ritmo circadiano, contribuindo para maior estado de alerta durante o dia e melhor produção de melatonina à noite.
5. criar um ambiente confortável para dormir
Um quarto silencioso, escuro, com temperatura agradável e com menos estímulos favorece um sono mais contínuo e restaurador.
[1] Watson NF, Badr MS, Belenky G, Bliwise DL, Buxton OM, Buysse D, et al. Recommended Amount of Sleep for a Healthy Adult: A Joint Consensus Statement of the American Academy of Sleep Medicine and Sleep Research Society. J Clin Sleep Med. 2015 Jun 15;11(6):591-2.
[2] Ramar K, Malhotra RK, Carden KA, Martin JL, Abbasi-Feinberg F, Aurora RN, et al. Sleep is essential to health: an American Academy of Sleep Medicine position statement. J Clin Sleep Med. 2021 Oct 1;17(10):2115-2119.
[3] Nogueira P, Vasconcelos R, De Souza T, Santos M. Avaliação da qualidade do sono em profissionais de saúde. Revista FT. 2025.
[4] Nelson KL, Davis JE, Corbett CF. Sleep quality: An evolutionary concept analysis. Nurs Forum. 2022 Jan;57(1):144-151.
[5] Ohayon M, Wickwire EM, Hirshkowitz M, Albert SM, Avidan A, Daly FJ, et al. National Sleep Foundation's sleep quality recommendations: first report. Sleep Health. 2017 Feb;3(1):6-19.
[6] Morrison M, Halson S, Weakley J, Hawley J. Sleep, circadian biology and skeletal muscle interactions: Implications for metabolic health.. Sleep medicine reviews. 2022;66: 101700 .
[7] Gómez-González B, Domínguez‐Salazar E, Hurtado-Alvarado G, et al. Role of sleep in the regulation of the immune system and the pituitary hormones. Annals of the New York Academy of Sciences. 2012;1261.
[8] Garbarino S, Lanteri P, Bragazzi NL, Magnavita N, Scoditti E. Role of sleep deprivation in immune-related disease risk and outcomes. Commun Biol. 2021;4(1):1304.
[9] Tomaso CC, Johnson AB, Nelson TD. The effect of sleep deprivation and restriction on mood, emotion, and emotion regulation: three meta-analyses in one. Sleep. 2021;44(6):zsaa289.
[10] Poluektov MG. Sleep and immunity. Neurosci Behav Physiol. 2021;51(5):609-615.
[11] Krause AJ, Simon EB, Mander BA, Greer SM, Saletin JM, Goldstein-Piekarski AN, Walker MP. The sleep-deprived human brain. Nat Rev Neurosci. 2017;18(7):404-418.
[12] Brodt S, Inostroza M, Niethard N, Born J. Sleep-A brain-state serving systems memory consolidation.. Neuron. 2023;111 7: 1050-1075.
[13] Murkar A, De Koninck J. Consolidative mechanisms of emotional processing in REM sleep and PTSD. Sleep medicine reviews. 2018;41: 173-184
[14] Chaput J, McHill AW, Cox RC, et al. The role of insufficient sleep and circadian misalignment in obesity. Nature Reviews. Endocrinology. 2022;19:82 - 97.
[15] Baranwal N, Yu PK, Siegel NS. Sleep physiology, pathophysiology, and sleep hygiene. Progress in Cardiovascular Diseases. 2023;77(1):59–69.
[16] Besedovsky L, Lange T, Haack M. The Sleep-Immune Crosstalk in Health and Disease. Physiol Rev. 2019 Jul 1;99(3):1325-1380.
[17] Malhotra RK, Avidan AY. Sleep stages and scoring technique. In: Kryger M, Roth T, Dement WC, editors. Principles and Practice of Sleep Medicine. 7th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022. p. 421-432.
[18] Sociedade Brasileira de Pediatria. Documento Científico – Departamento Científico do Sono (2019-2021). Higiene do Sono – Atualização 2021.
[19] Paruthi S, Brooks LJ, D’Ambrosio C, Hall WA, Kotagal S, Lloyd RM, et al. Recommended amount of sleep for pediatric populations: A Consensus Statement of the American Academy of Sleep Medicine. J Clin Sleep Med. 2016;12(6): 785-786.
[20] Brodt S, Inostroza M, Niethard N, Born J. Sleep-A brain-state serving systems memory consolidation.. Neuron. 2023;111 7: 1050-1075 .
[21] De Pasquale C, Kazzi ME, Sutherland K, et al. Sleep hygiene – What do we mean? A bibliographic review. Sleep Med Rev. 2024;75:101930.
[22] Shah AS, Pant MR, Tulasiram Bommasamudram, Nayak KR, Spencer, Gallagher C, et al. Effects of Sleep Deprivation on Physical and Mental Health Outcomes: An Umbrella Review. American Journal of Lifestyle Medicine. 2025 May 27;
[23] Griggs S, Harper A, Hickman RL Jr. A systematic review of sleep deprivation and neurobehavioral function in young adults. Appl Nurs Res. 2022 Feb;63:151552
[24] Mograss M, Abi-Jaoude J, Frimpong E, et al. The effects of napping on night‐time sleep in healthy young adults. Journal of Sleep Research. 2022;31.
[25] Riemann D, Benz F, Dressle RJ, et al. Insomnia disorder: State of the science and challenges for the future. Journal of Sleep Research. 2022;31.
[26] Sletten T, Weaver MD, Foster RG, et al. The importance of sleep regularity: a consensus statement of the National Sleep Foundation sleep timing and variability panel.. Sleep health. 2023.
Tópicos relacionados